sábado, 13 de outubro de 2012

Tchau


Quando sara a gente chora
e vai embora
lamentadando o que viveu
A gente sente amor e ódio pelo mesmo céu
Não eu
Por que comigo?
Como foi que aconteceu?
Sabe-se pouco de tudo
que passa
que fica
que fixa
que se perdeu
Se perdoa o que se pode
na frente de um espelho
que não era seu.
Tem gente que não olha pra trás
Tem gente que não quer mais viver
Tem gente que volta
Tem gente que perde a memória
Tem gente que é pedra, tem gente que não
A gente agora não se existe
Tem gente que fica triste
A gente acorda e se esvazia
No cheiro de uma cama, no gosto de um lençol
Tem gente que sente alegria
Eu vou fazer uma cirurgia
Pra parar de vez de entender.
Coisa que nunca se deu.
Um corte no hemisfério esquerdo,
alfinetada no coração
Tudo que era sim
Eu transformo em não
No âmago,
Faço uma lipoaspiração
Acordo em berço novo
bem clarinho
de madeira e algodão
Olho todas as coisinhas
como nova primeira vez
Saio sozinha
E me despeço da canção

sábado, 29 de setembro de 2012

Caminhada


Tijolo por tijolo, lágrima por lágrima, a cada nova ausência, a cada passo na direção contraria, desfez-se o castelo de sonhos onde eu morava.

Em cada esquina por onde eu passava, uma queda. Em cada rua, uma obscura estrada. Para não morrer, fiquei parada.

Fui encontrada congelada. Derretida pelo abraço de quem eu não quis. Pela mão negada eu fui acordada.

Corri pra dentro de mim. Tropecei no último passo. Levantei com a cara quebrada.

Esperei a hora passar. Dancei minha agonia na calçada. Fechei os olhos. Não havia dia. Hoje era sempre madrugada.

Olhei pra você e não te vi. Você não falou. Eu não te ouvi. Você me tocou. Eu te sorri embriagada.

Passei para o esboço de um novo contorno. Fui construída de novo. Carne por carne, osso por osso.

Pude então mais uma vez sentir chão, pedra, passarinho, amor, perto e longe, quente e frio, paisagem, solidão.

Caminhei com você enquanto podia. Eu não era para sempre. Você sabia. Eu dizia que não e você insistia. Eu dizia que ia e você não deixava.

Cheguei num ponto. Topo. Cume da montanha errada.

Atrás de mim vinha o vazio. Na minha frente o abismo, o suicídio, o fundo do poço, a última vida, a ex namorada.

Acima o céu, a ventania, a minha última chamada. Tentei voar, não consegui. (foi da escápula que brotou a asa?)

No tempo que passava não havia nada. Para não escutar o silêncio que a morte canta eu quis gritar, mas morri calada.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

De manhã


Já era dia e eu não sabia
Se morria
Ou se ficava
Eu não sabia
Quem sonhava

Já era dia e ela dormia
Fora da casa
Que não habitava
Eu não sabia
Onde sonhava

Já era dia e o olho aberto
Não permitia nova madrugada
Eu era só
Eu não sabia
Quando sonhava

Já era dia de outros corpos
Ganharem asa
Éramos sós
Eu eu já não sabia
Por quem sonhava.

Já era dia e na janela
A alegria não estava
Eu perguntava para ela
Por que eu não mais sonhava.

domingo, 29 de julho de 2012

De criança


Gosto de chuva


Se o dia fica assim
Se cinza o tempo está
Sim eu sei,
Você me disse
O céu não vai aguentar.

E vem a água colorir
O ar.

Enquanto toda a gente espera
O temporal passar
Eu abro a porta
A rua chama
Eu quero me molhar!

Encontro o doce sabor,
Sinto a pele resfriar
Do frio ao arrepio
Faço o tempo parar

É quando os olhos se fecham,
Os lábios se abrem
E a pele do rosto
Vem me esquentar
Que eu assisto o céu clarear
Então já não há dúvida
Você tem gosto de chuva.

segunda-feira, 16 de julho de 2012


O poeta
De um poema só
Passou
A vida pelas noites
E as noites pelos bares
A recitar
Sempre que podia
A sua única poesia

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Do outro lado de cá


Eu quero ir embora
Virar do avesso
Voltar de costas
Eu quero derreter
Uma bola de neve
Cair de cabeça
No concreto
Atrvessar o chão
E sair
Do outro lado
Eu quero a vida inteira
Uma mentira bem contada
Virar a cara
E abraçar o mundo
Eu quero tudo
Só que ao contrário
Eu quero o recomeço
Eu quero muito
E me esqueço
De mim
Eu quero assim
Um pouco de cada
Eu não quero nada
Que ultrapasse
Uma possibilidade inventada

Vem pro lado de lá
E me encontra aqui
Do lado de fora
De onde eu saí
Vem para perto de quem
Não tem mais para onde ir

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Partida

Já não há tempo
Enxuga as lágrimas e segue
Ergue a cabeça
Levanta do chão
E luta
Ninguém pode
Te levar pela mão
Abre o olho
E o coração
Pra vida que se mostra
Toda noite
Todo dia
Enquanto você se escondia
O sol ainda nascia,
O mundo girava
E nós dois
Na direção errada.